Apesar de muitos blogs, sites e jornalistas preferirem não apresentar homenagens nem eferemidades em seus textos o que eu penso ser uma baboseira sem tamanho apenas para alimentar um orgulho pessoal ridículo, meu texto será pessoal e efemero...
Aquele era meu primeiro real contato com o único destino inevitável, único mal irremediável... a morte...
Sim, eu já tinha perdido parentes próximos, meu avô materno faleceu quando eu tinha apenas meses e meu avô paterno faleceu quando eu tinha apenas 2 anos, na verdade, eu até tenho lembranças dele como se fossem um sonho distante, daqueles que você só lembra de detalhes, como eu no colo dele aprendendo a contar até 5 em alemão... ou em uma vez em que estava no banco de trás de um carro e ele dirigindo e minha avó ao lado dele olhando para mim me ensinando a falar a palavra grosse vassen que não faço idéia do que significa, mas que ficou para sempre comigo... como era recém chegado nesse mundo minhas lembranças e contatos não estão claros na minha memória...
Enfim, meu pai era fã de automobilismo. Não era um apaixonado, mas ele acordava mais cedo pra assistir as corridas, não isso não acontecia na época que toooodoooo Brasil seguia a Senna, não, meu pai na verdade era fã de Piquet e assistia a F1 desde que a Globo começou a transmitir as corridas no início dos anos 80. A primeira corrida que "assisti" - coloco assim entre aspas por que não dá pra esperar que uma criança fique por duas horas sentado na frente da tv - foi alguma corrida de 86, me lembro nitidamente da primeira vez que vi aquele carro preto e dourado com o capacete amarelo reluzindo e me lembro que por mais que não tivesse a noção da habilidade dele, havia decidido que iria torcer pra ele por que o carro era mais bonito... algo ridículo assim... a verdade é que Senna já havia feito miséria com a tradicional Lotus... comecei a me interessar por F1 e numa época em que a informação vinha em formato de revistas...a Grid mais precisamente e a Quatro Rodas... sim... revistas século 21... eu abria isso ao invés de abrir o wikipedia ou o google...
Em 87 fiz meu pai comprar um guia da temporada de F1, que me ensinou que aquele Lotus que antes era preto e dourado naquele ano tinha se tornado amarelo (eu achava incrível) era uma equipe criada por um projetista lendário chamado Colin Chapman e que já tinha tido outros grandes pilotos entre eles Graham Hill, Jim Clark, Emerson Fittipaldi e Mario Andretti. Associo aquele ano a um fato pessoal, os aniversários de meu irmão e meu sempre foram separados exatamente por duas semanas, me lembro que meu pai perguntou se queríamos ganhar um autorama juntos, ou uma bicicleta pra cada um.... claaaaaro que a gente escolheu o autorama que vinha com a Lotus amarela do Senna e com uma Ferrari estranha que depois soube era do Gilles Villeneuve.
Veio 88 e a McLaren e o primeiro título de uma temporada que eu acompanhei inteira, não entendi direito o sistema de pontuação por que tinha descartes e tal, mas me lembro das corridas da Inglaterra e da França com os mais incríveis pegas entre Senna e Prost e o GP da Itália com a vitória inacreditável de Berger com a Ferrari. Se em 88 a McLaren tinha fabricado o carro perfeito vencendo 15 das 16 corridas o ano seguinte não seria tão fácil
Em 89 eu já entendia melhor as coisas e me lembro que a Ferrari já fazia frente a McLaren. O cambio semi automático desenvolvido por Roberto Pupo Moreno já fazia diferença e Mansell havia vencido a primeira corrida do ano no Brasil. Apesar disso a McLaren ainda tinha um carro mais equilibrado e Senna e Prost criaram entre eles um "acordo" de cavalheiros, nada parecido com o que existe hoje na F1, era algo como, o cara que fizesse a primeira curva na frente seguia para liderança sem disputas entre eles até que os dois tivessem criado um espaço tranquilo para os outros competidores e a partir daí a disputa estava aberta entre os dois. O palco do nascimento das intrigas e rivalidade foi por uma enorme ironia Ímola. A corrida teve início e Senna pulou na ponta na primeira largada e disparou deixando Prost a merce de Mansell. Na quinta volta a outro piloto da Ferrari, Berger, sofreu um acidente seríssimo, na mesma Tamburello, com o carro em chamas, o acidente lembrava muito o de Niki Lauda. A corrida foi paralisada e os carros alinhados nas posições que estavam naquele momento da corrida. A relargada foi dada e Prost se saiu melhor que Senna fazendo a Tamburello a frente, so que na cabeça de Senna ele tinha prioridade, pois aquela era uma relargada, ja Prost achava que como era uma segunda largada ele tinha prioridade, o brasileiro foi implácavel atrás do francês e o ultrapassou na tosa, só que para Alain o brasileiro havia trapaceado uma vez que ele havia feito a curva na frente. Quem tinha razão ? Quem estava errado ? Prost se sentiu ainda mais traído pela McLaren, que havia apoiado a Ayrton. O francês se apegou ao presidente da FISA Jean Marie Balestre, chefão da F1 na época que era completamente intolerante com Senna, dizem as más línguas que o cara perdia até o apetite e não conseguia nem pronunciar o nome do nosso piloto sem um palavrão junto. O ano foi duro, muitas disputas, mas veio Suzuka em 89 e o maior papelão de Prost em sua história como piloto, aquela fatídica batida. Senna já tinha mais de meio carro por dentro na curva, Alain fechou a curva jogando o carro pra cima do brasileiro com a intenção de tirar a ambos da corrida o que garantiria o título mundial para o francês. Bateram e seguiram em frente na chicane. Com os motores dos carros apagados, o francês saiu com certa satisfação, Senna indignado gesticulava sem parar, pediu para os auxiliares da prova para o empurrarem e num lance mágico que só ele poderia produzir o motor de seu carro reacendeu, após perder quase uma volta, Ayrton desviava das barreiras de pneus e voltava para pista para dar uma volta inteira sem bico e seguir na prova com os braços da suspensão danificados, na última volta ele faz exatamente a mesma manobra sobre Nannini, e ultrapassa o italiano para vencer a corrida. O resultado final todos sabem, ele foi desclassificado injustamente pelos comissários da FISA. Só pra constar, de acordo com as regras da FISA o piloto tinha que ser desclassificado por manobras irregulares na pista enquanto a corrida ainda acontece. Balestre tomou a decisão que favorecia claramente Prost e o francês foi "campeão" daquela temporada. Aquilo quase fez nosso campeão desistir da F1, ele sonhava com a F1 pelas disputas e não pela politicagem.
Em 1990 era outra temporada, Berger e Senna na McLaren, Prost e Mansell na Ferrari, a temporada acirrada colocou novamente os dois rivais frente a frente e no final das contas Senna foi e deu o troco. Ele não estava orgulhoso com aquilo, mas tinha que mostrar a Prost e a Balestre que o que aconteceu em 89 era absurdo e não podia passar impune. Prost novamente correu pra sala dos comissários, mas desta vez o poderoso chefão estava de mãos atadas. Senna se sagrava bicampeão.
Em 91 viria o tri e a disputa fantástica com os carros de outro planeta, as Williams/Renault projetadas por Patrick Head e Adrian Newey, o gênio por trás dos carros da McLaren/Mercedes e da Red Bull.
Depois disso veio o domínio da Williams/Renault com seus carros absolutamente fantásticos, as melhores lembranças que tenho dessa época eram do GP de Monaco de 92 em que Senna vencia um alucinado Mansell que não conseguia ultrapassa-lo. Um lance de genialidade que me lembro era de Senna saindo do túnel com Mansell absolutamente colado em sua traseira, quem acompanha F1 sabe que a chicane seguinte é o melhor ponto de ultrapassagem da pista. Mansell vem e coloca o carro de lado, Senna permite que sua McLaren deslize como um kart meio de lado fechando assim qualquer espaço para que o leão faça a curva e segue a corrida a frente para a vitória. Inacreditável.
Em 93 então foram muitas corridas fantásticas com Senna em uma McLaren feitas as pressas com motor menos potente que da Benetton e mesmo assim o brasileiro fez as Williams, Ferraris e o alemãozinho comerem poeira. A primeira volta do GP de Donington Park conhecida como a volta mais perfeita da história da categoria. Essa semana assisti o VT e parece literalmente que todos estão em câmera lenta enquanto aquela McLaren voa por sobre a água, Senna venceu a corrida com uma volta sobre todos os pilotos na pista, apenas o segundo colocado estava na mesma volta e isso por que a McLaren errou em seu pit stop. O que poucas pessoas lembram e vou confessar que eu também não me lembrava é que um jovem piloto de 20 e poucos chamado Rubens Barrichello também havia dado um show na chuva e saída 12a. posição para a quarta posição na primeira volta. Aliás, só não houve dobradinha brasileira por que o péssimo motor Hart de Rubinho não aguentou. O ano de 93 marcou uma fase de maturidade de Senna, em que até mesmo houve um perdão mútuo entre ele Prost por que no final das contas Ayrton percebeu que antes de tudo ele era fã de Alain.
Todos sabiam que 94 Senna iria para a Williams, eu particularmente era apaixonado pela Ferrari(antes de Schumacher) e queria muito que ele fosse pra lá, mas estava feliz com ele na Williams. Lembro que comprei todos os gibis do Seninha e ele já tinha o carro azul e branco. Meu pai deu pra mim e pra meu irmão uma Williams e uma Ferrari de ferro, aquelas miniaturas perfeitas sabe, o detalhe é que eram do Hill e do Alesi por que as do Senna e do Berger estavam esgotadas. A FIA que havia trocado de presidente, o maluco Max Mosley havia assumido, vendo que o conjunto Senna-Williams ia ser imbatível proibiu todos os apetrechos eletrônicos dos carros de F1 da época. A Williams foi a principal afetada, o carro deles havia sido projetado para ter esses dispositivos, havia uma dependência disso ao contrário das demais equipes. O que aconteceu a seguir foi o obvio, o FW16 era inguiável, apelidado por Senna carinhosamente de cadeira elétrica. Ayrton sabia que isso era politicagem, os chefes de equipe Frank Williams e Patrick Head também, mas os tres nunca cederam a isso, sempre preferiram se superar do que chorar. A primeira corrida no Brasil, Senna foi pole e liderou até fazer o primeiro pit stop, aí Schumacher ultrapassou a Senna e seguiu para vitória enquanto o brasileiro rodou na perseguição ao alemão no final da corrida, aquilo tinha ocorrido por que não existia mais o controle de tração. Em Aida no Japão, numa pista que parecia de kart, Senna novamente faria a pole como sempre, na corrida foi abalroado por Larini que havia sido empurrado por Hakkinen pra fora da pista. Em Ímola todos lembram... aquele primeiro de maio de 1994 eu me lembro muito bem... na verdade aquele dia foi inesquecível, me lembro de quase tudo... meus tios Nando e Rita tinham ido passar o fim de semana conosco em São José dos Campos, já fazia mais ou menos um ano que meu pai tinha saído de casa e nossa família tentava se recuperar dos furacões que viraram nossas vidas de cabeça pra baixo em 93... me lembro da esperança de ver Senna vencer com a Williams já que no Brasil e no Japão não tinha dado certo... me lembro que o Dener tinha morrido recentemente... Estava na sexta série que eu tinha sido reprovado em 93 e gostava muito mais dos meus professores e sala de aula de 94... lembro dos Mamonas Assassinas... estávamos vendo a corrida e me lembro que quando o acidente ocorreu a primeira coisa que eu disse foi...
- Foram somente 6 voltas, acho que se eles paralisarem a corrida ainda dá pra ele pegar o carro reserva...
Sim, foram exatamente essas as minhas palavras, por que Senna fez isso comigo, me deixou mal acostumado pelo fato de ele sempre conseguir superar as dificuldades de uma forma ou de outra...
20 anos de saudades do meu primeiro herói... eu já lia Batman e Superman... mas Senna era real... era de verdade... de carne e osso...
Me lembro que era um mix de sentimentos... não sabia se chorava, se gritava, não sabia o que fazer... é curioso pensar que choro mais hoje quando vejo uma homenagem a ele do que na época...
Depois disso muita gente deixou de seguir a F1... eu não... eu sou apaixonado por esse esporte...
As vezes fico imaginando o que teria acontecido se ele se levantasse do carro apos a batida e fosse pros boxes... bem a revista sport uk fez esse exercício de imaginação.
Senna venceria o título de 94, mesmo com 30 pontos de vantagem de Schumacher leva-se em conta que Hill que sempre foi um piloto regular pra ruim disputou o título até a última prova, Ayrton com certeza teria melhores resultados que o inglês e iria se impor sobre o alemão. Em 95 graças a famosa manobra de bastidores de Briatore burlando as regras da FIA a Benetton era Renault e foi o carro mais forte, Schumacher conquistaria seu primeiro título porém iria suar muuuuito mais para conseguir tal feito com Senna em seu encalço. 96 a Williams e Hill dominaram o mundial, Senna e Hill fariam como a McLaren de 88 dominando completamente o mundial com Senna sendo penta campeão. Na minha opinião ele pararia ali, penta campeão e com um monte de recordes de poles e vitórias, mas para a revista ele iria em frente vencendo em 97 pela Williams seu sexto título e superando Fangio, e em 98 iria para a Ferrari para pilotar ao lado de Schumacher e ajudar a desenvolver o carro da equipe ao mesmo tempo que alcançaria seu sonho de pilotar um carro da equipe italiana. Ficaria atrás da McLaren/Mercedes de Hakkinen que seria campeão, porém faria uma boa temporada a la Piquet na Benetton em 90. E em 99 Senna venceria seu sétimo e último título de F1 pois lideraria a equipe já que Irvine que nunca foi nada conseguiu ser vice.
Em 2000 dizem que estrearia uma filial da Ferrari na Formula Indy ao mesmo tempo que se tornaria piloto oficial da Audi no mundial de endurance...
Infelizmente nada disso aconteceu... o que vimos foi o podio com Hakkinen e Larini completamente consternados ante a fatalidade ocorrida enquanto Schumacher comemorava alegremente sua vitória ao final do GP de Ímola de 94...
Senna foi o maior piloto de todos os tempos, na discussão para compara-lo com Schumacher, Ayrton vence de longe o alemão apesar dos números inflados.
Senna não trapaceava para vencer, Schumacher fez isso por toda sua carreira, para o alemão o importante eram os fins e não os meios, para Senna o processo todo era importante. Ele jamais pediu por contrato que seus companheiros fossem obrigados a perder pra ele, jamais trapaceou com as regras da FIA, não apoiava/pilotava carros irregulares e na única vez que bateu propositalmente não sentiu o mesmo prazer pela vitória...
Senna não trapaceava para vencer, Schumacher fez isso por toda sua carreira, para o alemão o importante eram os fins e não os meios, para Senna o processo todo era importante. Ele jamais pediu por contrato que seus companheiros fossem obrigados a perder pra ele, jamais trapaceou com as regras da FIA, não apoiava/pilotava carros irregulares e na única vez que bateu propositalmente não sentiu o mesmo prazer pela vitória...
Enquanto Senna ajudou a construir a F1 junto com outros grandes pilotos, Schumacher ajudou a destruí-la, com suas armações e ordens de equipe ano a ano Michael foi destruindo a credibilidade do esporte... esporte sem credibilidade é um esporte morto... o curioso é que mesmo com os inflados números e recordes do alemão de nada valeram, nenhum especialista ou fã o coloca entre seus 5 melhores de todos os tempos...
Felizmente a F1 vive uma época nova, de pilotos que vêem Senna como exemplo a ser seguido e Schumacher um exemplo a ser esquecido... da nova geração, quase todos são fãs confessos de Senna... Hamilton, Pérez, Vettel, Webber, Button... os únicos fãs de Schumacher na atual geração são Massa e Alonso... isso sem contar os da geração anterior que eram fãs de Ayrton o próprio Hill, Coulthard, Hakkinen, Irvine, Montoya, Fisichella... de outras categorias como Paul Tracy, Gil de Ferran, Cristiano da Matta, Greg Moore, Michael Andretti...
Apesar da morte de Ayrton minha paixão por corridas permaneceu e uma das melhores lembrançass são de uma oportunidade em que meu tio Billy "raptou" eu e meu irmão como ele gostava de fazer e nos levou a uma pista de kart indoor feita em um estacionamento de shopping perto de nossa casa em São José dos Campos. Me lembro nitidamente de que quando ouvi o ronco do kart pela primeira vez já de capacete sentado no carro eu chorei copiosamente... me lembrei de meu amigo que havia morrido havia pouco... chorei da mesma forma quando assisti ao filme pela primeira vez... estranho isso... se sentir tão próximo de uma pessoa que jamais conheci pessoalmente...
E numa vã tentativa de entender coisas feitas pelo coração... busquei definir o que ele era pra mim... e percebi que era como um amigo de infancia... daqueles que voce se diverteve brinca por horas e dias e sonha... mas que acaba ficando no passado por que a maturidade te chama, os anos passam e cada um segue para seu caminho... mas ao mesmo tempo quando fuça nas suas memorias te emociona e mata de saudades... esse era Ayrton Senna pra mim...
20 anos de saudades velho amigo, vida longa ao mitologico Ayrton Senna
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